PHANTOM THREAD | Confira o primeiro trailer do novo (e último) filme de Daniel Day-Lewis!

Pra tristeza de todo mundo, Daniel Day Lewis está em processo de abandono da carreira, e hoje, a Universal Pictures liberou o primeiro trailer de Phantom Thread, o último filme de sua carreira, dirigido pelo sempre ótimo (e parceiro de produções anteriores) Paul Thomas Anderson.

Sem mais delongas, segue o trailer:

O filme se passa na glamorosa Londres pós-guerra, onde o renomado criador de vestidos Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e sua irmã Cyril são o foco da moda britânica, vestindo a realeza, estrelas do cinema, socialites, debutantes e damas com o distinto estilo da Casa de Woodcock. Mulheres vem e vão na vida de Woodcock, enchendo o solteiro convicto de inspiração até que ele encontra a jovem e decidida Alma, que rapidamente o encanta e torna-se sua musa e amante. Uma vez controlado e planejado, ele percebe que sua vida perfeita é desbalanceada por esse amor.

Escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, Phantom Thread conta também com Lesley Manville, Vicky KriepsRichard Graham, Jane Parry e Camila Rutherford no elenco.

A BABÁ, de McG.

O filme acompanha Cole, um loser de primeira linha que está loucamente apaixonado por sua babá Bee. Ela é legal e incrível – todas as coisas que Cole não é. Certa noite, enquanto Bee está sendo sua babá, Cole testemunha o impensável, e ele passa a ter que sobreviver a uma noite cheia de primeiros beijos, primeiros corações partidos e primeiros encontros com maníacos homicidas!

É Terror, mas faz rir. É Comédia, mas deixa apreensivotenso. Tem tudo de um, mas faz tudo do outro. Que tipo de bicho é esse, afinal de contas? Acompanhando um fatídico episódio na vida de um jovem de 12 anos de idade, A Babá aposta numa antiga, mas nunca desgastada, fórmula. Desembarcando justamente na Sexta-Feira 13, a produção da Netflix é uma divertida trama coming-of-age desencadeada por uma desilusão amorosa – com o diferencial de que, aqui, trocam-se os choramingos e dramalhões por sangue a se perder de vista e situações pra lá de pitorescas.

Como todo filme do tipo, a promessa é sempre a mesma: unir Horror e Comédia do jeito que der, e o filme, felizmente obediente ao que pretende, obtém êxito na empreitada, entregando uma produção trabalhada no splatter(realizado à base de ótimos efeitos práticos) e no Humor Negro – que eventualmente brinca com algumas convenções (como é o caso do bonitão sarado que resolve ficar sem camisa sem a mais remota razão, ou do uso de jump scares avulsos). E brincar com características genéricas assim, a propósito, não é exatamente algo inusitado aqui, por duas razões: a primeiradelas é que McG, o diretor, foi o responsável pela famosa franquia de As Panteras (2000-2003) e também pela comédia Guerra é Guerra (2012) (duas empreitadas que fazem a mesma coisa com a temática de espiões); ou seja: o diretor tem certo costume em fazer isso. A segunda razão é que o filme se trata de uma Comédia de Horror – mais conhecida como “Terrir”, aqui em Terras Tupiniquins, subgênero do Terror reconhecido por fazer piada com as características do gênero.

A direção de McG faz o melhor que pode com o roteiro direto e enxuto de Brian Duffield, e ainda investe em interessantes artifícios narrativos e visuais, como é o caso dos letreiros que se lançam na tela em momentos-chave, sempre visando dar um aspecto mais cool a produção. A Babá, apesar de propositalmente livre de qualquer profundidade (embora tente aqui e ali estabelecer componentes emocionais), não deixa de agradar também em outros aspectos, como na trilha sonora e na vibrante fotografia de Shane Hurlbut.

Tudo isso concede a A Babá um lugarzinho entre as produções cinematográficas que, no decorrer da história – bem ou mal –, optaram por arrancar risos do Horror. Mas isso, é claro, não vem de hoje. A década de 80, salvo a existência de algumas produções do tipo em décadas anteriores, foi um marco para o Horror cinematográfico por muitas razões, mas uma das menos comentadas, com certeza, foi a sua fase contestadora de si e burlesca.

Subgênero pouco usual no mercado, mesmo naquela época, o Terrir é demarcado por justapôr componentes de dois gêneros que são usualmente compreendidos como antagônicos: o Horror e a Comédia. Tudo a serviço de questionar as convenções do Terror que vinham sendo construídas durante aquele período. Contudo, o termo Terrir é uma exclusividade da língua portuguesa, não existindo em línguas estrangeiras; e nós devemos isso a um cineasta brasileiro: Ivan Cardoso, o mestre brasileiro do Terrir, conhecido principalmente pelas produções O Segredo da Múmia (1982) e As Sete Vampiras (1986).

Mesmo não tendo sido completamente esquecido em algum momento da história desde seu advento, a impressão que vem se consolidando é a de que o Terrir está voltando com tudo nos dias de hoje. Os últimos quatro anos, por exemplo, entregaram uma safra do gênero até que bem extensa. De imediato, lembro-me de, pelo menos, 10 títulos. Temos aí As Vozes (2014), The Editor(2014), Housebound (2014), o ótimo O que Fazemos nas Sombras (2014) – do diretor de Thor: Ragnarok –, Deathgasm (2015), Terror Nos Bastidores (2015), Bloodsucking Bastards (2015), Krampus: O Terror do Natal (2015), Cooties: A Epidemia (2015) e Como Sobreviver a um Ataque Zumbi (2015) – do mesmo diretor de A Morte te Dá Parabéns –, além de outros filmes lançados em anos anteriores e que são obrigatórios aos fãs do gênero.¹

Em linhas gerais, A Babá deve – ou deveria, pelo menos – agradar igualmente a fãs de Terror e Comédia. E talvez vá, sobretudo, à quem DEFINITIVAMENTE não está procurando por algo sério e só quer aproveitar algum tempo livre no Mês das Bruxas pra rir e sentir-se tenso e enojado – tudo ao mesmo tempo.


 

[1]: Se essa mistura te agrada, e você não quer ir tão a fundo no histórico,
     então deve procurar pelos ótimos títulos Todo Mundo Quase Morto (2008),
     Tucker e Dale Contra o Mal (2010) e, claro, o incompreendido O Segredo
     da Cabana (2012).


Este texto foi publicado originalmente no site CINECOMTEXTO.

A MORTE TE DÁ PARABÉNS, de Christopher B. Landon.

Tree (Jessica Rothe) é uma jovem estudante que trata mal os meninos, desdenha das amigas e não parece estar muito disposta a atender as ligações do pai no dia do aniversário dela. No fim do mesmo dia, no entanto, ela é brutalmente assassinada por um mascarado. Acontece que ela “sobrevive”, ou melhor, acorda no mesmo e fatídico dia, numa espécie de looping macabro, que termina sempre com a morte da garota. Repetir, seguidamente, o mesmo dia, por outro lado, dá a Tree a chance de investigar quem a está querendo morta e o porquê.

Alguém dorme, ou morre, e acorda numa situação de onde não consegue escapar, presa num ciclo-temporal sem fim. A ideia é boa, e agoniante, na verdade, e você já deve ter ouvido falar dela por aí. O universo – ou talvez uma divindade que te acha muito especial – por alguma razão introduziu um curioso componente Deus Ex-Machina na sua sua vida: você agora tem uma quantidade ilimitada de chances de reviver um único e específico dia, de modo que, nele, realize alguma coisa que, de alguma forma, vai te fazer tanto sair daquela prisão quanto se tornar uma pessoa melhor. E aí?

Exemplos não faltam nesse nosso amado e prolífico mundo das ficções. A Cultura Pop está até que bem empesteada de histórias assim. O primeiro exemplo, e mais clássico deles (o pai de todos), é o da comédia Feitiço do Tempo, de Harold Ramis, lançado em fevereiro de 1993.¹ Importante filme, que nos apresentava uma nova forma de brincar com o tempo e, daquilo, arrancar humor, Feitiço do Tempo ajudou a moldar a Cultura Pop. De lá até aqui, já teve muita, mas muita coisa bebendo daquela fonte. Triângulo do Medo (2009), Contra o Tempo (2011), No Limite do Amanhã (2014), ARQ (2016) e Antes que Eu Vá (2017) são alguns dos exemplos mais recentes.

Óbvio que todos esse filmes não são iguais uns aos outros. Todos partem, sim, do mesmo princípio, mas entre eles há diferenças textuais e de tom bem expressivas. A mais nova empreitada que se baseia na mesma ideia é o filme responsável por esse texto: A Morte te dá Parabéns, de Christopher Landon (Como Sobreviver a um Ataque Zumbi, 2015), um filme que, não satisfeito em captar a medula das produções sobre loop temporal, vai até outra fonte igualmente importante: o Horror cinematográfico, e incorpora em si, ou tenta, pelo menos, toda a essência dos Slasher Films – ou, mais especificamente, aqueles Slashers com antagonistas mascarados, como Halloween (1978) e Pânico (1996) – entregando um resultado que, embora obviamente não grandioso, rende tanto um Terrir eficiente quanto uma interessante homenagem.

A direção de Christopher Landon, atenta ao que o roteiro de Scott Lobdell demandava, entrega um trabalho suficientemente ágil. O filme é direto porque devia ser direto e, mais importante, não se leva a sério; o que lhe permite ter seus erros (em parte) relevados com o devido perdão. A direção de Landom, mesmo sem grandes trunfos de condução, consegue utilizar elementos até eficazes para elevar, por exemplo, o senso de confusão de Tree Gelbman, a protagonista (bem interpretada pela lindíssima Jessica Rothe). Sobre isso, note: à medida com que o looping vai se agravando – ou seja, que as repetições vão se acumulando –, a protagonista vai se dando conta de que algo de errado não está certo naquilo tudo e, por isso, passa a se desesperar. É então que o diretor decide retratar a emoção da protagonista através do uso da câmera, desestabilizando propositalmente seus planos: usando planos holandeses, câmeras na mão, contidos shaky cams e o uso de um efeito semelhante ao celofane; tudo em busca de dar uma sensação mais acurada de desordem.

Determinado em ter em Pânico parte de seu alicerce tramático, o texto do filme não se limita em ter um assassino mascarado e usa uma das maiores particularidades do longa de 96. Ao usar um vilão não-sobrenatural que se esconde atrás de uma máscara, a trama do filme vai na exata direção do que fez o jovem clássico de Wes Craven e aglutina vários suspeitos, que se revelam nas relações de proximidade com a protagonista. E isso força o espectador a adentrar a trama e tentar desvendar o mistério. Acontece que, aqui, o mistério não é lá tão misterioso assim, já que o diretor, intentando brincar com o espectador, esconde a ~mirabolante~ resposta em pequenas pistas não-tão-óbvias, mas identificáveis, durante o filme. Ele até tenta sublimar o próprio mistério dando uma consistente pista falsa sobre o assassino, mas, se o espectador consegue identificar as pistas anteriores, o mistério se torna previsível e o truque do filme perde a efetividade. De “interessante” mesmo nesse tópico somente o pueril fato de que, mesmo durante a revelação – quando no final, em retrospecção, o filme explica o enigma –, as pistas reais dadas pelo filme não são reveladas.

O que temos aqui é, sem sombra de dúvidas, um filme divertido, não tanto por sua empreitada enquanto Thriller, isoladamente, mas por sua bem realizada união entre Comédia e Terror. Nesse tocante, a produção deve agradar aos fãs de ambos os gêneros. Ao fim, A Morte te dá Parabéns é um derivado sem tanta acuidade, mas eficaz, de Feitiço do Tempo – à quem o filme, sem vergonha na cara, referencia diretamente em sua última cena – e de Pânico, sem contar com a expertise de Craven e seu enciclopédico conhecimento sobre o Terror cinematográfico.


[*] Há controversas quanto a isso. Feitiço do Tempo não é, em termos, o primeiro filme a tratar do assunto exatamente daquela forma – ele só é o mais influente. Em 1990, o curta-metragem 12:01 PM, de Jonathan Heap, baseado na obra de Richard A. Lupoff, e que trata do mesmo assunto foi lançado; sendo esta, portanto, a primeira produção a ter alguém preso num loop temporal. Isso, inclusive, rendeu uma confusão bonita com a Columbia Pictures.


Este texto foi publicado originalmente no site CINECOMTEXTO.

Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve.

Califórnia, 2049. Uma nova espécie de replicantes, mais obediente aos humanos, foi desenvolvida. Um deles é K (Ryan Gosling), um blade runner que caça replicantes foragidos para a polícia de Los Angeles. Após encontrar Sapper Morton (Dave Bautista), K descobre um fascinante segredo que pode desencadear uma guerra entre replicantes e humanos. Assim, a tenente Joshi (Robin Wright), chefe de K, o envia para desvendar o mistério e evitar o pior.

Etimologicamente, a palavra robô significa trabalho forçado – de acordo com a internet, ela deriva do termo robota, que, em línguas eslavas, possui essa acepção. O que até faz sentido se pensamos no sentido apriorístico da criação de máquinas desse tipo, como objetos voltados exclusivamente à substituição da mão de obra humana em quaisquer tarefas, sem qualquer espécie de remuneração ou questionamento sobre as validades, práticas ou morais, do que lhes é exigido. A primeira pessoa a usar a figura do robô na literatura foi o tcheco Karel Čapek, em sua peça A Fábrica de Robôs, onde um prolífico cientista criava robôs humanoides justamente para que eles, obedientes, desempenhassem todo o trabalho físico.  

Robô, autômato, androide, replicante. Máquina sem consciência de si. Banco de dados mecânico e tecnológico sem o mais remoto tato para sensibilidades humanas, a figura do robô há muito faz parte do imaginário popular, mas a modernidade tratou de extirpar dessa figura essa conotação arcaica, e a Cultura Pop, pelas mãos de seus gênios de outrora, fez do robô objeto de estudo sobre a humanidade. Passamos, de Asimov a K. Dick, a reimaginar o robô como um agente questionador de sua natureza e condição. E foi então que o Homem de Lata, antes sem coração, passou a ser uma criatura dotada de tudo aquilo que faz do Homem, Homem: consciência, sentimentos, poder de escolha, etc. É claro que o conceito de máquina impassível não morreu e ainda permeia as ficções sobre o tema, mas hoje é apenas artifício, componente narrativo usado para explicitar a jornada de consciência da criatura.

Em 1982 Ridley Scott realizou aquela que, se não é sua obra magna, chega perto: Blade Runner, o Caçador de Androides, um conto frio e pessimista, mas repleto de paixão, sobre as relações entre máquina e humanidade. 35 anos depois, Dennis Villeneuve, um dos mais prestigiados cineastas de sua geração, assume a realização da sequência aqui analisada, uma continuação tão digna quanto aperfeiçoada de seu antecessor. De esmero artístico invejável e texto exemplar, Blade Runner 2049 pode, e com orgulho, andar ao lado da obra de Scott, tendo consciência de seu posto como uma das mais importantes obras da Ficção Especulativa de seu tempo, tal qual fora a obra-prima oitentista.

Não deixando de lado a clássica história do androide que passa a se notar como algo maior que um simples amálgama de engenharias, o novo Blade Runner encorpa sua trama com uma gama de aspectos que conseguem tira-lo da posição de sequência genérica que apenas recauchuta conceitos sem explora-los. Aqui, sobre a figura dos replicantes, além do despertar de paixões improváveis e da ânsia pela vida, o roteiro nos guia por uma história a versar sobre conflito de gerações, o milagre da vida e a capacidade humana de exercer comportamentos morais. Ou seja: há muita coisa a se falar sobre esse filme.

A produção de Blade Runner 2049 busca incessantemente, e que bom!, por estabelecer um paralelo entre o tom dos dois filmes. Em termos artísticos e de texto, este novo filme em praticamente nada se diferencia das sensações de isolamento, solidão, pessimismo e de fragilidade relacional que permeiam todo o filme clássico, com exceção de certas sequências em que Deakins opta pelo uso de cores quentes, indo de encontro a uma paleta semelhante a utilizada por Jordan Cronenweth nos momentos dentro da Tyrell Coporation, por exemplo – o que em ambos os filmes destoa da paleta fortemente carregada em tons frios daquela sempre abarrotada Los Angeles. Villeneuve, nesse sentido, é preocupado em fazer com que a estrutura dramática do filme seja efetiva e que o perfeito equilíbrio entre emoções e ideias se faça presente – haja visto que estes são, afinal de contas, aspectos medulares da história. Não à toa, ele também faz parte do processo de montagem de todos os seus filmes, justamente para ter certeza de que o público entenderá a história do filme de acordo com a visão que ele tinha para aquilo.

Villeneuve investe numa narrativa mais elegante que a de Scott em 82, mesmo sem abrir mão do uso de elementos artísticos que configuram o universo de Blade Runner. Aqui, por exemplo, Villeneuve abre mão do péssimo voice over do filme anterior – que, inclusive, foi motivo de piadas durante as gravações de 2049 –, ao passo que opta por pontuais flashbacks, que são, sim, recursos narrativos menos nobres, mas que não influem nem contribuem para o andamento da carruagem. Me foram completamente irrelevantes. Sendo franco, aliás, só o simples abandono da narrativa de muleta do filme anterior, já garante alguns ganhos em termos de lisura narrativa, aqui, mesmo com a existência de flashbacks. Há também o uso de uma característica que, mesmo sobriamente, demarca Dennis: a implementação de twists cuidadosamente elaborados na trama. E digo que isso demarca sua carreira não por um achismo vulgar, mas porque isso é, de fato, um ponto comum em seus filmes. Incêndios (2010), Os Suspeitos (2013), Sicario (2015), A Chegada (2016)… Em praticamente todos os seus filme somos conduzidos a um momento-chave onde uma surpresa arrebatadora, e que inverte a compreensão dos fatos apresentados, nos pega. E acredito que o investimento nesse elemento “conducional” em Blade Runner 2049 reforça ainda mais a sua posição como um aperfeiçoamento da história contada em 1982.

Absolutamente nada feito aqui é feito a esmo, tudo está no seu lugar, assim como tudo tem a sua devida função – mesmo que a necessidade de algumas coisas seja discutível. Nem mesmo a configuração de um Ryan Gosling aqui contido escapa de um propósito. Em boa parte do filme, observamos um Gosling emocionalmente contido, ou melhor, bastante impassível; como um típico robô que obedece à ordens sem qualquer comedimento, reflexo de uma personalidade perfeitamente sintonizada com seu contexto: frio, sisudo e pouco amistoso. Mas, mais que isso, há algo no K de Gosling que chama explicitamente a atenção: toda a sua impassibilidade soa falsa, não por uma atuação caricata ou qualquer problema nesse sentido, mas porque o ator consegue dar a seu personagem uma precisa e constante expressão de consciência e implosão; grosso modo, o que quero dizer é que em todo momento sentimos que K está, literalmente, prestes a explodir, prestes à pôr pra fora todo o sentimento humano, seja positivo ou negativo, que ele, um ser artificial, aglutina dentro de si – e é o que acaba acontecendo, enfim, na conclusão de seu encontro com Ana (Carla Juri), e que passa a ecoar posteriormente, como em seu desajustado “Teste Voight-Kampff” no quartel.

O filme, no que tange a seus componentes emocionais, é levado por K e pelas relações que ele forma no decorrer da história. Como mencionado acima, Gosling dá a seu personagem um tom de perfeita sintonia com o universo onde ele está inserido. Não há alegria plena em K e nem quaisquer projeções positivas em sua vida, movida apenas pela rotina de um oficial. Nesse sentido, em K há muito do Deckard de 2019 – com exceção do cinismo deste. Os únicos vislumbres de sentimentos que K demonstra a priori se dão no seu encantador relacionamento com Joi (Ana de Armas), que se desenvolve e solidifica a cada incursão do filme na subtrama dos dois. Os componentes emocionais de Blade Runner 2049, que não se concentram somente nas figuras de K e Joi, são bastante consistentes e nada ordinários.

A propósito, falar sobre essa fina relação entre as personalidades de K e Deckard me lembra que há na figura de K os reflexos de outro, e muito importante, personagem do filme passado: Roy Batty. As relações que traço aqui entre K e Roy Batty não são tão profundas quanto as com Deckard, e se dão apenas em sentido virtual. Mas há entre eles um Deckard, haja visto que este paralelo se baseia nas interações que esses dois indivíduos têm com o personagem de Harrison Ford. No longa de 1982, já em suas vias de conclusão, Roy Batty salva Deckard de uma iminente queda e, próximo da morte, passa a contar-lhe das maravilhas que o fato de viver lhe possibilitou, apesar da aturdida realidade urbana daquela Los Angeles; é uma das sequências mais memoráveis da história do cinema. Já aqui, em 2049, quando diante da necessidade de escolher entre matar Deckard e polpar-lhe a vida, K decide salva-lo e leva-lo a um importante encontro. E é exatamente nisso que se dá a ligação entre Roy Batty e K. Não consigo me desfazer da ideia de que esses dois episódios guardam uma ligação bastante delicada, embora abstrata: sua dimensão moral. Tanto Batty quanto K, quando diante das oportunidades de executarem Deckard, impelidos cada qual por suas circunstâncias, escolhem operar de acordo com valores comumente tidos como incomuns em seres artificiais, o que torna as proporções conceituais de ambas as obras ainda mais interessantes.

Alguns aspectos bem breves em Blade Runner 2049 me incomodaram, mesmo que irrisoriamente, e seguem sem possuir uma conclusão sobre minhas impressões. O primeiro deles, é o fato de Wallace (Jared Leto) parecer ser desenhado para vindouras produções. Jared Leto, mesmo que num ótimo desempenho e configurado para assemelhar-se brevemente ao Dr. Eldon Tyrell do filme de 82, é subaproveitado num curioso papel essencial, mas de pouco tempo de tela – contudo, pode-se discutir se havia necessidade de mais do que aquilo, mas prefiro deixar isso flutuando até concluir como interpretar a participação de Wallace. Meu outro incômodo diz respeito a trilha sonora. Estou, desde que vi o filme, num intenso conflito interno pela aceitabilidade integral da trilha sonora deste novo Blade Runner. Hans Zimmer é um baita compositor; dos melhores, e não dá pra dizer o contrário. Mas meu conflito ocorre porque achei a trilha sonora de Zimmer repleta de momentos grandiloquentes demais pra um filme que respira tanta sensibilidade. Digo, mesmo alcançando escalas próximas do tom de Vangelis em 82 em boa parte do filme e de conseguir torna-la diegética em certos momentos, fica meio nítido que, aqui, achou-se, e não sei porque, que usar sons mais carrancudos seria, de alguma forma, funcional. Zimmer, por alguma razão, aparentemente não consegue mais abrir mão de suas famosas trompas da perdição e, quando incumbido de encorpar o tom de situações grandiosas, as usa – como se as opções de construção, não sei, se limitassem àquilo. No mais, acredito haver muito a se falar sobre essa trilha sonora. Deixo para os especialistas.

Não haveria, talvez, pecado maior aqui do que encerrar o texto sem sequer mencionar o trabalho de Roger Deakins nesse filme. Brilhante. Soberbo. A fotografia de Blade Runner 2049 é de uma qualidade tão assustadora que tentar nomeá-la chega a ser inconcebível. Roger e Dennis, como dito em entrevista, imergiram em diversos brainstorms para enfim decidirem como o filme seria imageticamente, e afirmam que absolutamente nada ali foi coincidência. Investindo em cores que vão de um extremo à outro do espectro, e num uso meticuloso de iluminação prática – que viabilizou a concepção de belíssimas composições em chiaroscuro –, Deakins torna cada plano de Villeneuve em algo que beira o absurdo; tanto, que é praticamente impossível pescar uma imagem ruim do filme. Cada frame conta uma história, cada pequeno segmento foi milimetricamente pensado para entregar um resultado que, além de satisfatório em termos de estética, seria funcional em termos narrativos. É inegável que o filme deve muito à Roger Deakins, e não é por pura paparicagem que o próprio Villeneuve é categórico ao afirmar isso. Roger Deakins é nada menos do que uma lenda viva no domínio da cinematografia e, não à toa, embora nunca laureado com um Oscar, possui a admiração de todo bom fã da Sétima Arte.

Em termos sensoriais, Blade Runner 2049 é, sem sombra de dúvidas, o trabalho mais admirável de Dennis Villeneuve até agora, e só consolida ainda mais o nome do cineasta entre um dos diretores mais importantes da atualidade. Se essa sua nova empreitada, em termos de estética, consegue a proeza de agir como um definidor de um novo Estado da Arte no Cinema e cinematografia contemporâneos, há o que se discutir, mas não deixa de ser prazeroso que, em meio a tantas recauchutagens e revivals em Hollywood, ainda existam títulos de real qualidade. Consciente de sua condição como derivado, Blade Runner 2049 suplanta as dúvidas usuais sobre sua necessidade, entregando uma trama forte, encantadora, aperfeiçoada e, não menos importante, inspiradora.

Será lembrado.



Este texto foi publicado originalmente no site CINECOMTEXTO.

GODLESS | Confiram o trailer da nova série de Steven Soderbergh. Dessa vez, um Western!

Aposentadoria infelizmente costuma denotar ócio pra boa parte das pessoas. Pra Steven Soderbergh, no entanto, isso não passa de conto da carochinha. Depois da estreia de seu último longa, Logan Lucky: Roubo em Família, o cineasta já tem data marcada para um novo trabalho, como produtor, dessa vez com o selo Netflix: a minissérie Godless, um faroeste que promete agradar até quem não é fã!

Dirigida e escrita por Scott Frank, parceiro de longa data de Soderbergh, a série chega ao serviço de streaming no dia 22 de novembro deste ano, e conta com Jeff Daniels, Jack O’Connell e Michelle Dockery no elenco. Segue o trailer:

X-MEN: OS NOVOS MUTANTES | Confiram AGORA o primeiro teaser trailer do filme!

E na surdina, como quem nada queria, a Fox liberou este interessante e deveras curioso primeiro trailer de X-Men: Os Novos Mutantes, o novo derivado da saga X-Men. Investindo forte em elementos nada comuns na franquia, o diretor já havia avisado: Os Novos Mutantes será um filme de Terror. Duvida? Então confere só o trailer logo abaixo…

Dirigido por Josh Boone (A Culpa é das Estrelas, 2014), Os Novos Mutantes conta com Maisie Williams, Anya Taylor-Joy, Charlie Heaton, Henry Zaga, Blu Hunt e Alice Braga no elenco, e chega aos cinemas no dia 12 de abril de 2018.

STAR WARS: Os Últimos Jedi | Confira AGORA o NOVO TRAILER!

Com vocês, o novo trailer de Star Wars: Os Últimos Jedi, novo filme da franquia de Guerra nas Estrelas. Dirigido e escrito por Rian Johnson, o novo filme chega aos cinemas brasileiros no dia 14 de dezembro deste ano! O filme conta com Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Kelly Marie Tran e Benicio Del Toro no elenco.

E, adendo, o próprio diretor já disse: EVITEM O NOVO TRAILER, se quiserem ter uma experiência clean nos cinemas – mesmo afirmando que o trailer está muito bom. Mas, sem mais delongas, fiquem com o trailer:

E teve também o lançamento desse poster aqui, óh:

CÍRCULO DE FOGO: A Revolta | Confira o PRIMEIRO trailer da nova aventura com robôs gigantes!

Quatro anos após o sucesso de Círculo de Fogo nos cinemas, em agosto de 2013, hoje a Legendary liberou o tão esperado primeiro trailer do novo longa: Circulo de Fogo: A Revolta. Não mais contando com Guillermo Del Toro como diretor, que abandou o projeto para se dedicar à produção de A Forma da Água, a nova aventura com robôs gigantes será comandada por Steven S. DeKnight (showrunner da série Demolidor, na Netflix), que também colaborou no roteiro do filme.

Contando com John Boyega, Scott Eastwood, Jing Tian, Cailee Spaeny, Charlie Day, Rinko Kikuchi, Adria Arjona e Burn Gorman no elenco, o novo filme acompanha a errática jornada de Jake Pendergast, o filho do marechal Stacker Pentecost, interpretado por Idris Elba no filme anterior, como piloto de jaegars.

Jake Pendergast (John Boyega) era um promissor piloto do programa de defesa, mas abandonou o treinamento e entrou no mundo do crime. Quando uma nova ameaça aparece, Mako Mori (Rinko Kikuchi) assume o lugar que era do pai no comando do grupo Jaeger e precisa reunir uma série de pilotos. Ela procura o irmão Jake e decide lhe oferecer uma segunda chance para ajudar no combate e provar seu valor.

ROMAN J. ISRAEL, ESQ. | Denzel Washington se envolve com elite perigosa no primeiro trailer do filme.

E Denzel Washington está de volta, dessa vez no papel de Roman J. Israel, famoso advogado e ativista americano. O filme, dirigido por Dan Gilroy (O Abutre, 2014), acompanha a jornada de Roman no momento em que ele se torna direção de uma grande firma, sem saber que, com isso, estaria se envolvendo com gente perigosa.

O filme, que conta também com Colin Farrell, Carmen Ejogo, Ashton Sanders e Nazneen Contractor no elenco, chega aos cinema americanos no dia 3 de novembro.

Roman J. Israel é um advogado determinado e honesto, que sofre psicologicamente por sempre ver os outros ganharem crédito por seu bom trabalho. Depois que um dos sócios de uma grande firma morre, ele é convidado a assumir a direção no lugar do executivo. O que ele não imaginava é que descobriria um esquema dos mais sujos nos bastidores do poder – e que, caso ele não tome medidas ostensivas, os danos serão irreversíveis.